Manhattan's High School, 3 de setembro. Lá pelas sete e quarenta e cinco da manhã.
- Madson! – ouvi uma voz feminina conhecida me chamar.
- Lively... – disse, me virando devagar. Eu ainda estava meio desacordada.
- Nossa, você está péssima – ela dizia analisando meu rosto. Sinceridade aqui é mato – Que horas foi dormir ontem?
- Lá pelas duas da manhã – dei de ombros.
- O que você ficou fazendo?
- Uma pesquisa imensa sobre a revolução francesa... - reparei na sua face um tanto entusiasmada – Direto ao assunto, Liv – estreitei os olhos.
- Próximo sábado, vou fazer uma festa do pijama lá em casa! O que acha?
- Festa do pijama? – agora que ela falou, me lembrei de que eu não ia a uma dessas desde a sétima série.
- Mas é claro que é uma coisa mais íntima. Chamei só as de sempre – ela abriu um sorriso largo – Posso anotar que você vai?
O entusiasmo dela conseguiu despertar em mim uma súbita vontade de sair com minhas amigas. Maior parte do tempo eu passava com o Justin e já estava começando a ficar alheia aos assuntos femininos.
- Com certeza – sorri.
Liv começou a anotar o meu nome em um papel.
- Obrigada, amiga.
- Mad! – ouvi uma voz masculina gritar. Liv deu um sorrisinho que eu jurava ter visto igual na face da minha mãe na noite anterior.
- Justin – virei meu rosto para ele, ainda a tempo de vê-lo correndo na minha direção.
- Você vai hoje à noite, certo? – ele segurava a mochila ofegante.
- Certo... – respondi pensativa. Liv nos olhava com interesse, como se perguntasse com os olhos "hoje à noite o quê?" – Mas fiquei curiosa. O que você tem pra me mostrar?
- Haha, mocinha – ele estava presunçoso. Algo me dizia que devia ser alguma coisa realmente interessante – Isso você só vai descobrir se for.
- Nem uma dica?
- Nem uma dica. Ah, oi Lively – segurei o riso ao perceber que só agora ele tinha notado a sua presença.
- Oi Jus – por alguma razão, não gostei muito do "oi Jus" que a Liv deu para ele. Foi devagar, insinuante... Sei lá. Mas enfim, isso não é da minha conta. Não sou dona dele.
O sinal bateu.
- Ah, droga! Aula de química no terceiro andar. Tenho que correr. O professor é um saco. Tchau meninas – e correu em direção às escadas.
- Ui, aonde vocês vão hoje á noite? – fazia cara de danada.
- "Se toca", Lively! – dei um tapa de leve na cabeça dela – Somos só amigos – começamos a andar juntas em direção à sala de física. Tínhamos aula agora.
- Que bom – ela cruzou as mãos atrás do corpo – Se quiser vender o meu peixe, fique à vontade – com "vender o peixe", ela quis dizer que era para eu encher a bola dela para ele.
Ri da intenção.
- Que é isso... – fiquei um pouco sem jeito – O Justin não é muito do tipo de menino que "compra o peixe de alguém".
- O que é uma pena – ela suspirou derrotada – Você não sabe quantas meninas gostariam de estar na sua pele para ir a qualquer lugar com ele hoje à noite.
Girei os olhos.
Quando pisei dentro da sala de aula, me choquei bruscamente contra alguma coisa, sendo jogada para trás. Alguém me segurou (provavelmente a mesma coisa a qual eu tinha me chocado).
- Você está bem? – por incrível que pareça, essa era justamente a voz que eu escutava me perguntando se eu estava bem em noventa e cinco por cento dos meus sonhos (isso quando eu não sonhava com o Justin sentando em cima do meu bolo de aniversário. Uma péssima lembrança da sexta série). Comecei a bambear (reações desnecessárias do corpo humano).
- Ah... Er... Conor... – eu disse, abrindo um sorriso abobado. Parecia que eu estava sujeita a derreter a qualquer momento.
Eu provavelmente já devia estar ficando vermelha e ele estava lá: cabelos perfeitos, nariz perfeito e olhos perfeitos que me olhavam com certa preocupação. Travei. Não conseguia falar mais nada.
- Professor! – ele gritou, se virando para o gordinho careca na frente da sala (lê-se: professor de física) – Acho que ela precisa ir à enfermaria! – o professor começou a me olhar também preocupado. Agora meu sangue devia ter saído do rosto. Minha boca não conseguia abrir para dizer que eu estava bem. Um lado da minha consciência dizia: do que importa? Ele está segurando você (e dava gritinhos histéricos)!
- Você pode se encarregar de levá-la, senhor Zachary? – o professor perguntou com sua voz baixa e rouca.
- Com prazer, senhor – ele sorriu.
Com prazer? Com prazer! Minha consciência agora dançava a macarena, enquanto a "eu" no estado físico estava toda mole sendo conduzida pelo Conor Zachary.
"Dale a tu cuerpo alegria, Macarena..."
- Ela está bem? – ele perguntou.
- Está sim – a enfermeira dizia, tirando uma luzinha irritante do meu olho.
- Foi só uma tontura. Nada demais – ah, agora eu estava falando.
- Ela provavelmente deve estar com fome – deduziu brilhantemente - É recomendável que coma alguma coisa agora, senhorita Oliver –assinava uma permissão para Conor entrar na sala.
- Isso pode ficar por sua conta, certo, Mad? – ele me chamou pelo meu apelido.
- P-pode.
- Então, tchau linda – ele piscou para mim e balançou de leve a cabeça, como se pedisse licença para a enfermeira para sair da sala.
Talvez o meu suposto amor "platônico" não fosse mais tão platônico assim. Ele me achava linda. Uma garota linda e nas nuvens, agora.
Enquanto Conor estava passando pela porta, Justin entrava todo afobado. Durante o momento em que um passava pelo outro, eles trocaram um breve olhar. Conor sorria, Justin parecia meio perturbado.
- Mad! O que aconteceu? Você estava tão bem na hora em que... – eu estava um pouco alienada – Mad?
- Ah! – retomava o assunto – Jus . Claro. Não houve nada.
- Tem certeza? – ele se agachou para ficar do meu tamanho. Eu estava sentada numa cadeira de apoiou seus cotovelos no meu joelho para me examinar mais de perto – A Liv me mandou uma mensagem dizendo que você tinha passado mal. Você me parece meio pálida.
- Eu estou bem, Jus – respondi, girando os olhos. Sentia-me uma menininha teimando com o pai.
- Se você diz – levantou-se – Mas ainda vai hoje á noite, não é?
- Não perderia por nada – sorri. Ele sorriu também – Ah! Acompanha-me até a cantina?
Harlem, Manhattan, 3 de setembro. Seis e trinta da tarde, exatamente.
O táxi me deixou na porta do prédio vermelho-terra velho da rua 121.
Eu vestia roupas largas e um boné azul turquesa e branco que o Justin tinha me dado há uns três anos atrás.
Quando eu não tinha que estar "bem-vestida" para alguma coisa, eu sempre o usava.
Ele estava sentado nas escadinhas que antecediam a porta do prédio, com um jeans propositalmente rasgado no joelho e uma blusa azul clara.
- Cheguei cedo? – perguntei, vendo-o virar seu olhar pra mim. Parece que dessa vez quem estava em transe era ele.
- N... Não, não – ele acordou – Chegou na hora.
- E então? – comecei a andar um pouco ansiosa na sua direção – Qual é a surpresa?
- Hm... – ele me examinou dos pés à cabeça – Isso, senhorita. Eu ainda pretendo fazer um pouco mais de suspense – ele deu de ombros, se levantando.
- Droga, Justin. – fiz minha "cara fofa", arrancando-lhe uma risada.
- Que foi?– perguntou rindo e depois ele tirou uma chave do bolso e abriu o portão do prédio – Primeiro, vamos lá para cima. Meu pai quer ver você.
- Ah, e como o velho Bieber está? – eu disse animada, passando pela porta, enquanto Justin a segurava.
- Forte como um touro.
- Como sempre – completei.
Justin morava num prédio simples e velho do Harlem, junto com várias outras pessoas. Havia quatro apartamentos em cada andar (eram três andares). As escadas do prédio eram estreitas, os apartamentos muito unidos e pequenos. Justin não se importava e, se estava tudo bem pra ele, para mim também estava.
Começamos a subir o lance de escadas, ainda a tempo de ver um vulto ser lançado para fora de um dos apartamentos do terceiro andar.
- Ligue para mim, gracinha! HAHA! – gritava a pessoa arremessada para fora do apartamento que a tinha arremessado. Ouvimos o bater da porta.
O rapaz no chão parecia se divertir. Era branco, alto, forte. Aparentava ser só um pouco mais velho do que eu.
- Chaz – Justin começava um pouco nervoso – O QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO? – alterou-se.
- Qual é? – Chaz se levantou do chão, abraçando Justin e lhe dando dois tapinhas nas costas. Dei uma risada.
- O que você estava fazendo no apartamento da Mary Ja... – Chaz o empurrou para o lado, antes que ele terminasse, fixando seu olhar em mim com um largo sorriso.
- Você trouxe a princesa! – e me deu um forte abraço. Eu já conhecia aquele abraço. Sorri.
- Ei, Chaz – eu o correspondia, enquanto via Justin girar os olhos.
Chaz morava no apartamento do lado do da família Bieber. Sempre morou lá. Então desde que Justin se mudou para a vizinhança, eram ótimos tempos bem logo que nos conhecemos, na primeira vez que vim à casa do Justin, há anos. Chaz se tornou um excelente companheiro.
- Você sabe que, se for preso outra vez, não vou ter como livrar a sua barra – Justin falava um pouco sério.
- Relaxe, irmão – ele me soltava de seu abraço, se virando para o amigo – Você sabe muito bem que da ultima vez fui preso injustamente – parecia certo do que falava – Eu estava bêbado e não sabia que a loira não queria...
- Chaz! – Justin o interrompeu, me indicando com os olhos.
- 'Ta certo, 'ta certo... – resmungou – "Nada de palavras feias e/ou obscenas perto da princesa" – ele fazia uma voz afetada, imitando algo já dito por Justin. Dei uma gargalhada.
- Você é um inútil mesmo – Justin suspirou – Vamos entrar.
Ele destrancou a porta e girou a maçaneta. Um homem colocava a mesa. Olhou-nos quando entramos. Chaz também entrou.
- Mad! – veio na minha direção, me dando um abraço que também correspondi.
- Jeremy! – eu tinha um carinho muito grande por ele.
- Faz quase uma semana que não a vejo... Está perdendo a freqüência de vir por aqui. Porém, com certeza essa situação vai mudar, agora que o Justin... – Justin fez um sinal com a mão para que ele se calasse – Ah, você ainda não contou pra ela, meu filho?
- Ainda não – ele abaixou a cabeça.
- Até eu já sei – Chaz deu uma risada – Mas pense assim, mano... - ele colocou o braço sobre os ombros de Justin – Agora que você tem recursos, sei de um lugar ótimo para vocês dois... – Justin o fuzilou com os olhos – "Olhe a boca, Chaz" – novamente ele fazia a voz afetada, girando os olhos.
Ri de novo, apesar de estar um pouco confusa.
- Já vou servir o jantar. Podem se sentar à mesa – Jeremy dizia, indo em direção à pequena cozinha.
A mesa de jantar ficava na sala. Logo, nós três já havíamos nos sentado.
Sr. Bieber já tinha colocado a comida na mesa e começamos a jantar. Seu espaguete estava impecável, como sempre.
-... E ele disse isso enquanto estava dormindo cara! – dizia Chaz entre gargalhadas. Todos nós ríamos – Dá para acreditar?
- Ai... - eu dizia, já sentindo dor no abdômen de tanto rir – Se eu falasse enquanto dormia, seria muito vergonhoso. Quem sabe o que eu poderia dizer? – mais risadas.
- Eu também – Justin disse, já parando de rir.
- Na verdade, Justin... – Jeremy limpava a boca com o guardanapo. Chaz soltou um "Iiiih!", como se quisesse dizer: "ferrou para você, cara". Justin fez careta – Você fala dormindo, sim.
- Ah, não brinca! – Justin disse boquiaberto - O que eu falo? – ele parecia um pouco tenso, me olhando de lado.
Eu prestava atenção.
Sobre o que será que o Justin sonhava? Acho que nunca conversamos sobre isso.
- Você sussurra o nome da Madson a noite inteira – Justin começou a engasgar e eu também – "Madson"... "Mas"... – Jeremy imitava.
- Calúnia! – ele começou a dizer entre tosses. Chaz se divertia.
- Pior é que é verdade, cara. Até eu que moro no apartamento do lado escuto – mais risadas. Só que dessa vez, apenas entre ele e o Jeremy.
Enquanto engasgávamos, Justin me lançou um olhar, como se quisesse ver a minha reação. Eu estava vermelha de vergonha, assim como ele também.
- Não dê ouvidos ao que esses dois falam – Justin dizia, descendo as escadas – Eles sabem de nada.
- Tudo bem – eu disse um pouco sem graça – Não dei ouvidos mesmo.
- Preparada para a surpresa? – ele disse, retomando o ânimo.
- Ah! A surpresa – já tinha quase me esquecido dela.
Justin abriu a porta do prédio e desceu as escadinhas, correndo, parando na frente de um carro.
- "Tcharam"! – ele disse, virando as duas mãos na direção do veículo.
- Isso é sério? – perguntei boquiaberta – Você agora tem um carro?
- Bem... – cruzou as duas mãos atrás da cabeça - Ele ainda pode parecer uma lata-velha, mas nada que algumas horas na oficina não resolvam – deu de ombros.
Corri para perto, para vê-lo (o carro) melhor. Era um Oldsmobile Starfire Holiday antigo, azul, com a pintura meio gasta e as rodas um pouco sujas, mas servia bem.
- Quer dar um volta? – ele olhou pra cima um pouco sem jeito.
- Claro! – concordei, já abrindo a porta do carro e me lançando para o banco do carona.
Justin se sentou no banco do motorista, girando a chave na ignição.
- Quando aprendeu a dirigir? – perguntei com as duas sobrancelhas levantadas.
- Sei de muita coisa que você nem suspeita, baby – ele piscou pra mim, me fazendo rir.
- Não sabia desse seu lado de "agente secreto britânico" – brinquei.
- O nome é Bieber, querida - piscou pra mim de novo – Justin Bieber – dei uma gargalhada com a tentativa do Justin de fazer uma "cara sensual".
Ele acelerou o carro, me fazendo ficar surpresa com o fato de ele, realmente, saber dirigir.
Ficamos um momento em silêncio, enquanto eu tentava sintonizar a rádio.
Ficamos um momento em silêncio, enquanto eu tentava sintonizar a rádio.
- Aquela tontura... – Justin começava a falar.
- Hm?
- Hoje de manhã... – ele olhava sério para a estrada – Foi por causa do Zachary?
- Ah... Não sei ao certo. Acho que não – mentirosa. Eu sabia. Tinha sido por causa do Conor. Parecia que eu tinha um bloqueio para falar desse tipo de coisas com o Justin.
- Você já está melhor?
- Bem melhor.
- Aconteceu alguma coisa entre vocês? – ainda sério.
- Ah, não. Nada. Ele só me levou para a enfermaria – dei de ombros – Ah!
- O quê?
- A Lively me pediu pra "vender o peixe dela" para você – ele riu.
- E é isso que você vai fazer?
- Não – comecei a brincar com o meu cabelo depois de desistir de sintonizar a rádio – Eu disse para ela que você não era do tipo que "comprava o peixe" de alguém – novamente ele riu.
- Que bom que você sabe.
- Para onde está me levando? – lembrei-me desse pequeno detalhe de repente.
- Para casa – Ele sorriu – Já está mais do que na hora de você ir para a cama.
- Está parecendo o meu pai – cruzei os braços. Ele olhou de rabo de olho e deu uma risada.
- Está na hora de alguém aqui começar a ter um pouco de responsabilidade. Não acha?
A rádio, enfim, sintonizou, e continuamos o caminho, cantando qualquer música da que tocava.

