Sábado. Até que enfim uma hora de descanso, paz, sem a gritaria do colégio... Só eu e o meu santuário (vulgo: quarto).
- Madson! – minha mãe gritava da cozinha. Acabou o silêncio e a paz. Eu estava estatelada na cama, com o laptop no colo e rodeada por sacos de chips e outras porcarias.
- Quê? – gritei.
- A Emma ligou. Queria saber se você já estava indo... – Indo? Emma? Ah, droga.
Adeus, laptop. Adeus, porcarias. Adeus, santuário. Esqueci-me de que tinha dito para a Emma que eu ia à festa do pijama.
Corri direto para o banheiro para tomar uma chuveirada rápida e arrumar minhas coisas.
Desci as escadas com a minha mochila já pronta.
- Mad – minha mãe chamou.
- Que foi?
- O que acha da Megan vir passar umas semanas aqui com a gente? – ela perguntou esperançosa. Megan é minha prima da Califórnia. Morena, alta, bonita e dois anos mais velha. Ela sempre costumava vir passar um tempo conosco no verão, mas já tem uns anos que ela não vem.
- A Meg? – fiquei entusiasmada – Acho ótima ideia! - eu ainda andava apressada em direção à porta, já girando a maçaneta e colocando o corpo para fora.
- Ah, e o Justin ligou. Ele disse para você não se esquecer de retornar...
- Não vou me esquecer – fechei a porta.
Casa daGinny, 12 de setembro. Dez e quarenta da noite.
Eu estava gostando. Estava gostando de estar com as minhas amigas, ter papos de menina, fazer coisas de garota. O Justin nunca iria querer falar sobre essas coisas.
- Quem vocês acham o menino mais gato da Manhattan High School? – Liv perguntava, olhando para cima, escorada no sofá.
- Justin Bieber, com certeza – Emma deu um sorriso malicioso. Senti um leve incômodo com a expressão dela.
- Conor Zachary – lembrei-me do momento em que ele me levava pra enfermaria.
- Fico com a opinião da Emma – disse Lively – O Justin é tudo.
Revirei os olhos.
- Acho que vocês se esqueceram de que a namoradinha dele está bem aqui – Cassie disse, me indicando com a cabeça.
- Ei, não sou a namoradinha do Justin – torci o nariz.
- Ah, pelo amor de Deus, Madson! – Lively disse – Então por que você fica andando com ele para cima e para baixo? Se não são namorados, o que mais podem ser?
- Amigos.
- Ai, que inveja – Cassie suspirou – Eu que queria ser amiga dele.
- E o Andrew, Cassie? – arregalei os olhos. Como ela poderia ter se esquecido do próprio namorado?
- Como diz o velho ditado - ela sorriu –, "cavalo amarrado também pasta", não vou deixar de curtir as coisas boas da vida por causa do meu namorado.
- Com coisas boas da vida, ela quer dizer o Justin – Lively traduziu.
- Você sabe que as meninas estão à beira de criar um fã-clube chamado: "eu amo o Justin Bieber"? – Cassie disse. – Ele é a escolha perfeita de qualquer uma.
- Em contra partida - dizia Lively – Estão à beira de criar um fã-clube chamado: "eu odeio a Madson Oliver" – dei uma risada irônica.
- Enfim - Cassie continuou – Ele é alto, forte, tem a pele perfeita, cabelos perfeitos e um sorriso de fazer qualquer uma ficar tonta – parecia até eu descrevendo o Conor. Nunca tinha visto o Justin desse jeito. Só como o Justin, o meu melhor amigo – Além de tudo isso, ele ainda é inteligente, gentil, cavalheiro e não está envolvido em nenhum escândalo envolvendo mulheres...
- Como o Zachary, no caso – Lively olhou pra mim. Fiz bico – O pior dia do Justin foi na festa de Primavera – eu me lembrava dessa festa – Parece que ele bebeu um pouco além da conta e ficou com cinco numa mesma noite – ah, claro. Eu me lembrava dessa "conquista" do meu amigo. A festa tinha sido há uns três, quatro meses. Apesar de que pensar sobre isso não me agradasse em nada, era impossível não lembrar.
- Fui uma das cinco – Emma sorriu vitoriosa. Até que enfim tinha voltado a falar depois de ficar perdida em pensamentos durante a fala das meninas. Bufei – Ele estava tão bêbado na festa que no dia seguinte mal conseguia se lembrar do meu nome.
- Foi a única vez que o vi assim – eu disse.
- Deve ter sido por causa da Cher – Lively estava pensativa – Foi logo após o término deles.
- Ele devia gostar mesmo dela – Cassie completou.
- Ah, que nada – eu sentia que precisava falar alguma coisa – Foi só uma coisa passageira. Ele nem ficou tão chateado...
- Ele não ficou chateado porque terminou com a Cher? – Emma ficou boquiaberta – Se ela soubesse disso, ia pirar. Fiquei sabendo que até hoje ela esnoba as outras líderes de torcida, dizendo que mais cedo ou mais tarde ele volta para ela.
- Sem chance – declarei.
- Tomara que esteja certa – Lively cruzou os dedos.
- Ah, e dizem que ele tem uma voz linda também. Além de tocar violão, claro – Cassie disse.
- Eu sabia que ele tocava violão, mas... – juntei as sobrancelhas, confusa – Onde o pessoal o ouviu cantar?
- Na festa de Primavera – Emma explicou
- Ele nunca cantou para mim… - disse pra mim mesma, sentindo uma pontada de revolta.
- Mas, também, você não pode culpá-lo – Emma deu de ombros – Aposto que ele nem se lembra de ter cantado alguma coisa lá.
- Ainda mais em cima da mesa – Cassie completou. Fiz careta, imaginando a cena.
- Ah, fale sério, Mad... – os olhos da Lively pareciam me devorar de curiosidade - Não me diga que você não sente nada por ele.
- Nossa, até eu – Cassie brincou, se abanando.
- Amizade.
- Ah, não me diga que vocês nunca...
- Nunca, Liv – nem a esperei terminar – Sempre fomos amigos. Isso nunca mudou.
- Importa-se se eu investir? – Emma perguntou. Taquei uma almofada nela, só pela vontade de que ela calasse a boca, e assim começou uma guerra de travesseiros que durou a noite toda.
Manhattan High School, 14 de setembro. Três e pouco da tarde.
- Mad! – ouvi Justin gritar, correndo em minha direção, na saída do colégio.
- Justin? – virei-me.
- Por que você não me ligou? – ele parava na minha frente, ofegante.
- Ligar para você? – pensei um pouco – Ah! Ligar para você! Desculpe-me, Justin. Esqueci-me completamente – dei-me um tapa na testa. – Era importante?
- Agora já está tudo em ordem – ainda ofegante.
- O que aconteceu?
- Sábado, tive que levar meu velho ao hospital...
- Aconteceu alguma coisa? Ele está bem? – fiquei preocupada.
- Agora está tudo bem. Foi só uma tonteira. O médico disse que foi nada – estávamos parados um pouco depois do portão da escola – Eu queria que alguém me fizesse companhia... Achei que para você não teria problema.
- Ai, droga! Devia ter ligado. Você ficou lá sozinho?
- Na verdade, não – coçou a cabeça. – O Chaz apareceu por lá com flores e tudo – dei uma risada.
- Não imagino o Chaz no hospital.
- Nem queira – ele entortou a boca – Parecia que ele ia a um encontro. Ainda mais com aquelas rosas vermelhas – fez careta. Eu ri - O médico aconselhou que o velho ficasse de cama por esses dias.
- Posso ajudar em alguma coisa? – eu estava me sentindo muito culpada por não ter ido ao hospital quando o Justin precisou.
- Sabe, agora que meu pai está de cama, estou tendo que tomar conta do restaurante. Isso significa que tenho ficado muito cansado – fez uma pausa - Preciso de um pouco de diversão, senão eu vou ficar louco. Mas, em compensação, não posso deixar o velho Bieber sozinho lá em casa – ele pensou um pouco – Que tal fazer uma sessão de filmes amanhã? Minha televisão não é tão ruim assim...
- Estou dentro – sorri – A que filmes você quer assistir?
- Qualquer um que não seja um musical– ele girou os olhos – Ah, e nem um romancezinho água com açúcar também. Que tal "Jogos Mortais"?
- Nem pensar – levantei as sobrancelhas.
- "O Chamado"?
- Também não – percebi que ele já ia abrir a boca para falar alguma coisa. Então eu disse simplesmente - Não vai ser de terror, não importa o que você diga.
- Eu ia falar "Tartarugas Ninjas", mas se você tem medo, podemos mudar – dei uma gargalhada.
Senti alguém me cutucar. Justin foi fechando o sorriso aos poucos.
- Conor! – disse surpresa e depois me amaldiçoei por isso. Eu devia ter sido mais casual.
- Mad! – ele repetiu meu tom surpreso, de brincadeira. Dei uma risadinha sem graça – Está melhor?
- Estou, sim. Obrigada – eu estava conseguindo falar. Ainda bem. Apesar de fazer mais de uma semana que ele teve que me levar à enfermaria, fiquei feliz por ele estar preocupado comigo de novo.
Impressão minha ou os sintomas do amor também estavam contagiando o Conor? Suspirei com o pensamento, sem perceber. Conor sorriu. Justin se deu um tapa na testa.
- Mas então... – Conor começava a falar um pouco sem jeito. Sem jeito! – Eu estava pensando se você vai fazer alguma coisa na sexta... –Justin deixou o queixo cair. Eu também – Se for fazer nada, podemos ir a um restaurante. Sei lá.
- Não, não – eu respondia quase automaticamente, um tanto histérica – Vou fazer nada na sexta.
- Vou esperá-lo no Café Pierre às oito. O que acha? – ele piscou pra mim. Minhas mãos estavam geladas. Eu estava com medo de cair – Aqui o número do meu celular. Se você chegar antes, não se esqueça de avisar – peguei o papel da mão dele.
- Para mim está perfeito!
- Vejo você lá então, linda – ele aproximou seu rosto do meu devagar, enquanto eu tampava a respiração.
Colou nossos lábios em um selinho (percebi o Justin olhar para o lado nessa hora) e retornou a andar na direção de seus amigos.
Virei-me para o Justin lentamente, dura feito um robô.
Eu nem piscava.
- Terra chamando Mad... – ele disse, passando a mão na minha frente. Eu ainda não tinha reação – Mad? – Justin perguntou novamente, me segurando pelos ombros e sacudindo. Soltei um sussurro baixo, mas significativo.
- Com que roupa eu vou?
Harlem, Manhattan, 15 de setembro. Lá pelas quatro horas.
- Dá pra acreditar, Justin? – joguei-me no sofá ao seu lado. Ele segurava uma vasilha de pipoca.
- É a mesma pergunta que você está me fazendo desde ontem à tarde. Não, Madson. Não dá pra acreditar – ele parecia cansado da minha insistência.
- Qual o seu problema? – perguntei, unindo as sobrancelhas – Por que não está dando pulos e gritinhos de felicidade comigo?
- Primeiro que, se fizesse esse tipo de coisa, eu seria gay – ele começou a contar nos dedos – Segundo que acho que nem um gay dá pulinhos e gritinhos de alegria.
- Felicidade – corrigi.
- Tanto faz. – dei uma risada irônica. Ele sorriu com a minha irritação – Terceiro que o garoto mal conversou com você e já veio lhe dando um selinho e quarto que, vamos e voltemos, a fama do Zachary não é lá a melhor de todas.
- Você também não é nenhum santo, gênio – girei os olhos – Já ficou com cinco na mesma noite. Coisa que nem o Conor fez.
- Eu estava bêbado e sem noção das minhas ações – ele balançou a cabeça para cima e para baixo.
- E por que você acha que o Conor não pode ter mudado? – estava indignada – Por que acha que ele não pode gostar de mim?
- Não é isso... – ele juntou as sobrancelhas, pensativo – Só tenho medo de que você se machuque – disse por fim.
Soltei um longo suspiro.
- Obrigada por se preocupar. Sério – encostei a cabeça ao seu ombro – Mas acho que já sou bem grandinha pra saber me cuidar. Certo?
Ele não respondeu.
- Você disse a mesma coisa quando começou a namorar o Brian, mas ainda assim, ficou chorando na minha cabeça uma eternidade.
Dei um beliscão no braço dele.
- Ai, ai!
- Eu tinha só treze anos. Está bom? Mudei muito.
- Espero mesmo.
- Mudando de assunto... – ele voltou a olhar para mim – Que filme vamos ver?
- Bem... – ele deixou a vasilha de pipoca ao meu lado e se levantou presunçoso – Como prometi para você que não seria de terror e para mim mesmo que não seria nenhuma coisa meiguinha, docinha e ridícula com o final feliz... – aí vem – Peguei Titanic.
- 'Ta. Pode ser. Gosto da trama.
Ele foi colocar o DVD.
- O Chaz não vai ver com a gente? – perguntei.
- Hoje não. Ele está tentando arrumar um emprego – Justin se jogou ao meu lado.
- Um emprego de quê?
- Produtor de bandas. Maioria daqui do bairro – ele riu de uma lembrança.
O filme começou.
- Veja se não chora – alertei.
- Nunca – respondeu, sorrindo.
Na metade do filme, eu já estava em prantos. O Jeremy dormia e o Justin se divertia com o meu choro.
A história é basicamente sobre uma mulher rica (Rose) que se apaixona por um homem pobre (Jack) e vive o seu amor proibido à bordo do navio. Jack mostra a Rose outra perspectiva da vida, de como as coisas simples podem ser mais prazerosas.
Em várias partes do filme, eu conseguia enxergar o Justin no rosto do Leonardo DiCaprio, no personagem que ele representava. Não que eu os achasse parecidos de rosto, mas o jeito, a trama... Acho que por isso estava tão triste.
Quando o navio começou a afundar, eu mal conseguia respirar de tanto soluçar. Imaginei o Justin naquela situação. Eu sabia o final.
- Não quero ver mais – disse entre soluços, enterrando meu rosto no peito dele.
- Ah, mas justo agora que está ficando bom? – ele se lamentou. Parecia estar se divertindo com a desgraça de Rose e Jack.
- Justin... – minha face ainda estava enterrada em seu peito. Já devia ter molhado sua blusa toda. Voltei meu rosto pra ele. O garoto também se virou para mim. Meu olhar estava suplicante – Por favor...
Acho que o mesmo entendeu o motivo pelo qual o Jack estava me tocando mais do que nunca - mais do que nas outras vezes que eu vi esse filme -, porque ele se levantou, sem questionar, e tirou o filme.
- E agora? – perguntou, parecendo despreocupado – Temos "Tartarugas Ninjas" e "Tartarugas Ninjas". Alguma preferência? – sorri. Ele colocou o DVD.
Estava escuro. Acordei no sofá, escorada no seu ombro. Ele me olhava sem desviar o olhar. Senti um pouco de vergonha por estar sendo observada enquanto dormia.
- Você dormiu no meio do filme – esclareceu.
- Droga – resmunguei – Há quanto tempo estamos assim?
- Mais ou menos uma hora – deu de ombros.
- E por que você não me acordou?
- Gosto de ver você dormindo - deu um sorriso disfarçado.
- Droga, Justin.
– Ah, e sobre aquele papo de falar dormindo... Sinto muito, mas você fala, sim - estava presunçoso.
- Ah, caramba! – tampei a minha boca de vergonha – O que eu disse?
- Você sussurrou o nome do Conor uma vez... – ele fez cara de despreocupado – E sussurrou o meu duas – sorriu.
- Quê? – ele balançou a cabeça para cima e para baixo, como se dissesse: "verdade" –Não pense coisas estranhas, Justin – cruzei os braços.
- Nunca disse que eu estava pensando.
- Mas fez cara de quem estava.
- Eu, não – ele ainda sorria – Venha. Levante-se. Vou deixar você em casa.

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