Manhattan's High School, 21 de setembro. Onze e meia da manhã, ou seja, horário do almoço.
O refeitório já estava lotado. Cada aluno se virava para encontrar uma mesa. Eu já tinha a minha: com o Justin, o Ryan, a Cassie, o Christian, a Lively e, hoje, até a Emma (que fingia não ter segundas intenções).
- Ai, que fedor! – Ryan reclamava – Sentar duas mesas depois do banheiro não foi a melhor escolha.
- Culpa do Justin – Chris disse com a voz nasalada, já que tinha tampado o nariz.
Lively deu uma risadinha.
- Ah, cale a boca – Justin retrucou – Essa era a única mesa sobrando. Além do mais, podia ser pior. Poderíamos estar sentados a uma mesa do banheiro.
- Ou na mesa enfrente à lata de lixo – completei.
Comecei a observar as pessoas à nossa volta. As líderes de torcida toda hora lançavam um olhar em direção à nossa mesa (para ser mais exata, em direção a certa pessoinha sentada à minha frente). Cher cochichava alguma coisa com elas a cada vez que as mesmas olhavam.
Suspirei.
Continuei dando uma geral no lugar, até perceber que as líderes de torcida não eram as únicas que nos encaravam. Conor estava sentado com seus amigos em uma mesa no canto. Tinha seus cabelos perfeitos, nariz perfeito e me encarava com seus olhos perfeitamente roxos. Deixei uma risada escapar e depois virei meu rosto para o Justin, boquiaberta, com um sorriso no canto dos lábios.
- Você é inacreditável – disse baixo para só ele ouvir.
Ele se virou para trás, deixando que seu olhar se encontrasse com o do Conor, e depois se virou pra mim, com uma cara convencida.
- Só o que posso dizer é que no meu restaurante ele nunca mais volta – ele respondeu no mesmo tom baixo, para que só eu ouvisse.
Emma pareceu se sentir incomodada com as nossas confidências, porque não pôde deixar de interromper.
- Gente! – ela disse, olhando para a mesa do canto – Onde será que o Zachary arrumou aqueles olhos roxos?
- Vai saber – Justin deu de ombros.
Segurei uma risada.
- Em falar no Zachary... – Lively olhou para mim – Vocês tiveram um encontro sexta-feira, não é, Mad? – assenti com a cabeça. Justin prestava atenção – E como foi?
- Ah... Nada impressionante, na verdade – eu fingia fazer pouco caso – Ele é muito ruim de papo. Acabei indo embora mais cedo – dei de ombros.
Dessa vez, quem segurava a risada era o Justin.
- Você não faz ideia do que aconteceu com ele? Parece ter apanhado bastante... – Cassie ficou pensativa.
Neguei.
- Seja lá de quem ou de que ele apanhou, foi uma surra bem dada – Ryan disse, observando-o. Eu e Justin trocamos um olhar cúmplice.
Harlem, 25 de setembro. Seis e quinze da noite.
[N/t]: Quem quiser, pode colocar para carregar a música:Awake, do Secondhand Serenade.
Outono, finalmente! A estação já chegou, me presenteando com uma temperatura mais baixa que vinte e cinco graus.
Eu subia as escadas do prédio velho, apressada, apesar de não ter motivo nenhum. Toquei a campainha do apartamento 302, já sabendo que seria o senhor que abriria.
- Boa noite, Mad – ele me disse, sorrindo, fazendo sinal para que eu entrasse.
- Boa noite, Jeremy – disse, entrando no apartamento, devolvendo o sorriso – Obrigada por me chamar para o jantar...
- Que é isso... É sempre um prazer tê-la por aqui.
Olhei a sala vazia. Nenhum sinal do Justin.
Eu ouvia o barulho de violão vindo do corredor.
- Ele está no quarto – ele disse, já prevendo qual seria a minha pergunta.
Agradeci, me dirigindo para o corredor devagar.
- Ah Jeremy ! – disse, me virando pra ele.
- Sim?
- O senhor já está... – falei um pouco mais baixo – Já está melhor?
- Está brincando? – ele deu uma risada.– Melhor impossível. Se bobear, até vou correr na próxima maratona... – sorri feliz com a notícia.
- Que bom saber – suspirei aliviada.
Voltei-me novamente para o corredor estreito, indo em direção ao quarto do Justin. O barulho de violão ficava cada vez mais alto.
A porta estava fechada, me deixando de cara com os mil e um adesivos nela colados.
[N/A]: Se você carregou, coloque para tocar.
Bati na porta. Ninguém atendeu. Bati na porta novamente.
- Justin? – chamei, sem resposta – Justin, vou entrar – alertei.
Abri a porta devagar, colocando meu rosto para dentro do quarto. Pela fresta aberta, pude observar Justin sentado na cama, sem blusa, com o violão no colo e cantando baixo alguma música.
- "With every appearance by you, blinding my eyes".(Com toda a sua aparência cegando meus olhos)
"I can hardly remember the last time I felt like I do". (Mal consigo me lembrar da última vez em que me senti como me sinto)
"You're an angel disguised". (Você é um anjo disfarçado)
"And you're lying real still". (E você está deitada bem parada)
"But your heart beat is fast just like mine". (Mas a batida do seu coração é tão rápida quanto a minha)
"The movie's long over". (O longo filme terminou)
"That's three that have passed. One more's fine". (São três que já passaram. Um a mais está bem)
"Will you stay awake for me?". (Você ficará acordada para mim?)
"I don't wanna miss anything". (Não quero perder nada)
"I don't wanna miss anything". (Não quero perder nada)
"I will share the air I breathe". (Compartilharei o ar que respiro)
"I will give you my heart on a string". (Eu lhe darei meu coração em um cordão)
"I just don't wanna miss anything". (Só não quero perder nada)
Fiquei parada, em silêncio, tentando não fazer o menor barulho que pudesse interrompê-lo. Primeiro porque ele estava muito concentrado, tocando violão. Segundo porque ele canta muito bem. E terceiro porque... Eu nunca tinha o visto sem camisa antes... Quer dizer, até tinha... Na sétima série.
Mas acho que o corpo do Justin mudou demais até o segundo ano. Eu sabia que se eu o interrompesse, ele vestiria a camisa. Por mais vergonhoso que seja admitir, acho que eu não queria isso. Minhas bochechas até avermelharam com o pensamento.
"I'm trying real hard not to shake. I'm biting my tongue". (Estou realmente tentando não tremer. Estou mordendo minha língua)
"But I'm feeling alive and with every breath that I take". (Mas estou me sentindo vivo e com todo o ar que respiro)
"I feel like I've won. You're my key to survival". (Sinto como se tivesse ganhado. Você é minha chave da sobrevivência)
"And If it's a hero you want". (E se é um herói que você quer)
"I can save you. Just stay here". (Posso salvá-la. Só fique aqui)
"Your whisperes are priceless". (Seus sussurros não têm preço)
"Your breath it is dear. So, please, stay near". (Sua respiração é querida. Então, por favor, fique por perto)
"Will you stay awake for me?". (Você ficará acordada para mim?)
"I don't wanna miss anything". (Não quero perder nada)
"I don't wanna miss anything". ( Não quero perder nada)
"I will share the air I breathe". (Compartilharei o ar que respiro)
"I'll give you my heart on a string". (Eu lhe darei meu coração em um cordão)
"I just don't wanna miss anything". (Só não quero perder nada)
"Say my name. I just want to hear you". (Diga o meu nome. Só quero ouvi-la)
"Say my name, so I know it's true". (Diga o meu nome e então sei que é verdade)
"You're changing me, you're changing me". (Você está me mudando, você está me mudando)
"You showed me how to live". (Você me mostrou como viver)
"So just say. So just say". (Então apenas diga, então apenas diga)
Meu nariz começou a coçar até um ponto que não aguentei mais.
Espirrei.
Justin tocou com força e desafinado no violão, se assustando com o meu espirro. Deixei a porta abrir devagar. Nossos olhares se cruzaram.
- Mad? – ele perguntou surpreso, jogando o violão para o lado e indo em direção a uma escrivaninha, onde estava sua blusa vermelha.
- Por que a surpresa? – perguntei, coçando o nariz, observando colocá-la (a blusa).
- Eu não sabia que você vinha – ele respondeu com uma pontada de irritação.
- Seu pai não o avisou? – juntei as sobrancelhas, confusa.
- Não me avisou o quê? – ainda estava irritado.
Virou-se para mim.
- Que ele me chamou para o jantar...
- Ah, mas eu mato aquele velho... – murmurou.
- Algum problema com eu vir jantar aqui? – eu ainda estava confusa.
- Não, não – ele disse rápido, perdendo a pontada de irritação – Claro que não – Ele pensou um pouco – Há quanto tempo está aí?
- Ah, isso... – eu disse, tentando parecer pensativa – Não faz muito tempo - mentira.
- Ah, bom – ele soltou um suspiro, se jogando na cama baixa.
- Bonita música – ele levantou os olhos, deixando-os encontrar com os meus novamente. Fiquei um pouco sem jeito – Está bom. A parte da música que ouvi... – girei os olhos, derrotada – É de quem? – dirigi-me até a cama dele e me sentei devagar ao seu lado esquerdo.
- Uns amigos meus escreveram – deu de ombros – Gosto do som.
- Não sabia que você tinha amigos no ramo da música – fato.
- Mais do que você imagina – ele deu uma risada baixa.
- Já pensou em formar uma banda?
- Até já, quando eu morava no Canadá .– ele olhava fixamente para a parede – Eu tinha uns amigos que também tinham essa vocação.
- E o que aconteceu? – perguntei um pouco mais baixo.
- Minha mãe morreu e eu perdi a motivação – deu de ombros novamente – Pouco tempo depois, meu pai resolveu se mudar pra cá.
- Ah, está bom. Agora me senti culpada pelo meu país por estragar o seu sonho – fiz bico.
Ele riu.
- Não se sinta. Acho que não teria dado certo mesmo... – ele cruzou as mãos atrás da cabeça.
- Por que não pede ajuda para o Chaz? – sugeri – Ele mexe com produção de bandas, não é? De repente, ele arruma outras pessoas com as quais você possa... – Justin me olhou com os olhos arregalados.
- Você por um acaso tem noção das bandas que o Chaz produz?
- Não – respondi sincera.
- Nem queira – gargalhei.
- Coitado... Nem podem ser tão ruins assim.
- Ou podem – Justin respondeu.
Dei outra risada.
Mexi-me na cama, ouvindo um barulho de papel sendo amassado onde eu estava sentada. Pulei para o lado, tirando a jaqueta azul do Justin, na qual eu estava sentada (sim, o quarto dele é uma bagunça), de cima de uma revista.
- Revista de mulheres? – perguntei, olhando-o boquiaberta.
- É do Chaz – ele respondeu depressa – Juro que nunca tinha visto antes - beijou os dedos indicadores duas vezes.
- Ah, claro – revirei os olhos, colocando a revista atrás de mim.
- Ah, fale sério. Sou homem. Mereço um desconto – assentiu.
- Você não pensa em desconto quando entra no meu quarto e vê aqueles pôsteres do..
- Zac Efron – ele falava com a voz afetada, levantando as mãos e as balançando de leve, simulando histeria.
- Esqueceu-se do Johnny Depp – lembrei-o.
- Uhul! Como me esquecer dele para completar o grupo de gatões? – ainda tinha a voz afetada – Ah, fale sério, Mad. Minha avó tinha pôsteres deles no quarto dela. Você não acha que já estão muito ultrapassados?
- O que não é ultrapassado então, gênio? – olhei-o com olhar de descrença.
Como se ele soubesse de alguma coisa.
- Ter uma foto minha no seu criado mudo já seria um grande passo – ele fez cara de convencido. Dei uma risada irônica – Em falar em foto no criado mudo...
- Hm?
- O que você fez com a foto do... – ele pareceu medir palavras – Zachary?
- Amassei - comecei a contar nos dedos – Rasguei, queimei e, por fim, joguei fora – ele riu e depois ficou sério.
- E o que fez com seus sentimentos por ele?
- Com sentimentos você quer dizer...
- Amor.
- Acho que ele nunca existiu – dei de ombros.
O queixo dele caiu.
- Então quer dizer que fiquei um ano - pequena pausa – repito: UM ANO escutando você falar sobre um sentimento que nunca existiu? – Ainda boquiaberto.
- É – sorri – Deve ter sido só uma paixãozinha inocente.
- Vou lhe mostrar o que é paixãozinha inocente... – Ele disse, se virando pra mim com as mãos em formato de garras.
- Ah, não, Justin. Você não... – eu já começava a rir, prevendo o que ele iria fazer.
- Ah, sim, Mad. Eu sim – ele respondeu, começando a me fazer cócegas na barriga, enquanto eu me debatia em meio a risadas um pouco histéricas.
- Pare, Justin! – risadas histéricas.
- Isso é por um ano de azucrinação... – ele parou e pensou um pouco.– Essa palavra existe? – ri mais ainda.
- Claro que existe, seu bobo – ele continuou a me fazer cócegas.
Eu já devia estar vermelha de tanto rir.
- Sabe no que estou pensando? – ele fez voz de quem estava fazendo esforço.
- Em parar de me fazer cócegas? – perguntei esperançosa.
- Não – ele girou os olhos, como se fosse óbvio – Que azucrinar é uma palavra muito feia – gargalhei.
Meu abdômen já estava doendo.
- Está bom – ele disse – Agora chega – soltou-me, enquanto eu arrumava os cabelos e tomava fôlego.
- Crianças – o Jeremy gritava da sala – O jantar está servido!
Eu me levantei da cama, arrumando a minha roupa, novamente os meus cabelos, e me virando para o Justin. Estendi minha mão para ele, para ajudá-lo a levantar.
- E sobre o baile do meu pai... – eu disse sorridente.
- Ah, não invente, Mas – ele disse, segurando minha mão e se levantando, apesar de fazer voz de manhoso – Você sabe que eu não tenho cara para entrar lá com um terno remendado.
-Nop – respondi, ainda sorrindo – Dei um jeito..

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